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Aromas do Valado
Inovar nos aromas e tradições do campo

Helena Vinagre - Aromas do ValadoHelena Vinagre criou há cerca de três anos a empresa Aromas do Valado. Dedicada à produção de óleos essenciais e aos produtos biológicos de higiene pessoal e cosmética, arrecadou em 2014 o troféu Jovem Empresa do Ano. Aliar a inovação aos recursos endógenos tem sido a chave do sucesso.


A Aromas do Valado tem sede em Segura, no concelho de Idanha-a-Nova. A Helena tem raízes familiares nessa aldeia?
Nasci em Castelo Branco, mas passei a minha juventude, sobretudo a infância, em Segura. O meu pai era guarda-fiscal na aldeia. Depois fui para fora do concelho de Idanha. A minha carreira tem sido ao contrário do habitual. Casei, fui mãe, trabalhei por conta de outrem, fui diretora de uma grande multinacional. Deixei a minha carreira e voltei a estudar. Fui colega dos meus filhos. Fui aluna da Escola Superior de Educação de Castelo Branco, onde me licenciei, e quando já estava a arrancar o projeto Aromas do Valado decidi frequentar um Mestrado na Escola Superior de Gestão de Idanha-a-Nova.

Como surgiu a Aromas do Valado?
O projeto tem quase três anos, no que se refere à constituição da empresa. Mas tem quase seis anos se contarmos com a investigação e o desenvolvimento prévios. Nós começámos por fazer uma investigação na área das plantas aromáticas para conhecermos as suas aplicações. Percebemos que eram imensas. Para que se tenha noção, os óleos essenciais entram nas indústrias farmacêuticas, parafarmácia, cosmética, perfumaria... A partir daí começámos a idealizar o projeto. Também fizemos formação na área, numa fase que coincidiu com o início do meu Mestrado na Escola Superior de Gestão de Idanha-a-Nova, onde quis desenvolver competências na parte da gestão.

O que a fez avançar com a empresa?
A principal razão que me levou tomar essa decisão foi a vontade de regressar às origens. Depois dos filhos formados, e já a constituírem as suas próprias famílias, estava na hora de regressar às raízes. Coincidente, estávamos na altura em que o Município de Idanha-a-Nova dava os primeiros passos no programa “Não Emigres, Migra!”. Verificámos que era um concelho que estava muito interessado no empreendedorismo. Não queríamos ajudas financeiras, mas um ambiente favorável por exemplo na divulgação da empresa ou no apoio em termos burocráticos.

Acresce que as plantas aromáticas são um recurso endógeno desta região…
Precisamente. O potencial endógeno do Geopark Naturtejo é imenso nessa área. Temos o objetivo de desenvolver uma cadeia de óleos essenciais. Para esse fim criámos uma Academia, onde formamos outros produtores.

O “core business” da Aromas do Valado é a produção de óleos essenciais e a sua transformação. Mas em pouco tempo alargaram a atividade da empresa, em particular à formação. Porquê?
A diversificação da atividade sempre esteve prevista no nosso plano de negócios. Queremos ser a empresa nacional com maior diversificação na área das plantas aromáticas. Logo que percebemos o potencial das plantas aromáticas, verificámos que toda a área de negócio pode ir muito além daquilo que é a planta em si ou o óleo essencial. Daí que tenhamos criado a Academia Aromas do Valado, onde podemos potenciar outros produtores. Se formarmos outras pessoas na área da destilação conseguiremos produzir maiores quantidades com vista à exportação. Com uma fileira torna-se muito mais fácil exportar.

As pessoas que frequentam a Academia manifestam a vontade de integrar uma rede?Aromas do Valado
Sim. Nós já recebemos pessoas de todos os pontos do país: Algarve, Centro e toda a franja Norte de Portugal. O propósito é incutir nas pessoas que fazem formação connosco a possibilidade de serem membros da fileira dos óleos essenciais. Gostaríamos era de ter mais participação do concelho de Idanha, porque esta área pode ser muito interessante para pessoas que querem recomeçar a sua vida.

Estas plantas estão debaixo do nosso nariz, mas não aproveitamos…
Exatamente. Ninguém estava a aproveitar este potencial endógeno. Por exemplo, a esteva é uma planta que só existe em parte de Espanha, Portugal e Marrocos. Os franceses apreciam imenso este óleo essencial e é um dos mais caros do mercado.

Quem são os clientes mais apetecíveis?
Os principais clientes dos óleos essenciais são laboratórios estrangeiros.

E consegue colocar os óleos essenciais nesses laboratórios?
Ainda não conseguimos, porque não temos quantidade suficiente. Daí estarmos a querer formar novos produtores. Há um tipo de consumidor que é, neste momento, muito favorável ao uso de produtos naturais e biológicos. Ao mesmo tempo, cresce a área da aromaterapia. É uma área em que também estamos a trabalhar. Nos países do norte da Europa, as pessoas fazem aromaterapia para prevenir doenças.

Em 2014, a Aromas do Valado foi premiada com o troféu de jovem empresa do ano. O que significou esse prémio?
O prémio foi entregue pela Caixa Geral de Depósitos e pela Chambre de Commerce et d'Industrie Franco-Portuguaise. Reconhece sobretudo a inovação do nosso projeto. A França é o país dos perfumes e a organização achou muito interessante o nosso projeto.

Mas que aspetos terão pesado mais?
O recurso ao potencial endógeno foi decisivo. O facto de estarmos a fazer o aproveitamento de plantas para as quais ninguém olhava.

A Helena está a fazer uma tese de Mestrado em Gestão de Empresas. Tendo já um projeto empresarial, o que a levou a procurar também o conhecimento académico?
Sou uma pessoa que tem imensa sede de conhecimento. Tenho de estar em constante aprendizagem. Por isso, decidi juntar o útil ao agradável, e quando fiz um Mestrado em Gestão de Empresas, canalizei a aprendizagem para me ser útil no meu negócio. Além disso, estamos num concelho que está em franco desenvolvimento no empreendedorismo e a minha tese poderá levar algumas pessoas, mais ou menos jovens, a acreditarem no potencial de Idanha-a-Nova.

A tese de Mestrado incide sobre o concelho de Idanha-a-Nova e o Geopark Naturtejo. Pode ser útil a empresas que pretendem aproveitar as potencialidades deste território?
Sim. O tema da minha tese vai ao encontro do potencial dos recursos endógenos do concelho, sobretudo do Geopark Naturtejo. Analisa, inclusivamente, algumas plantas que já hoje utilizamos. Acredito que possa inspirar outras pessoas que queiram fazer este tipo de trabalho, sobretudo na área da destilação dos óleos essenciais. Era bom que algumas pessoas vissem que temos aqui um grande potencial.

A Helena tem já um conhecimento substancial da realidade do concelho. Para quem esteja a considerar a hipótese de criar uma empresa, quais as áreas com maior apetência?
Um caminho possível é os produtos endógenos, a agricultura e a terra. Temos produtos espetaculares, às vezes basta colocar-lhes uma embalagem diferente para serem mais apetecíveis ao consumidor. Mas, como refiro nas considerações finais da minha tese, há outras áreas em que temos potencial, nomeadamente os sectores do turismo e do lazer. Em especial o turismo da natureza. Fazem falta empresas com programas orientados para dar a conhecer a quem nos visita todo o nosso potencial. Seja ele potencial natural ou histórico-cultural.
No que se refere à utilização de plantas aromáticas, há muito potencial além dos óleos essenciais. Na área alimentar podemos criar produtos diferenciadores. Cada vez mais o consumidor quer produtos diferentes. A roda já inventada: é preciso apenas dar-lhe um toque diferente. Não devemos também, necessariamente, fornecer matéria-prima para que outros acrescentem valor aos nossos produtos, mas vender ao consumidor final um produto com valor acrescentado. A Aromas do Valado já o faz e outros também o podem fazer.

Imagino que defenda o encontro entre o lado empresarial e a investigação.
Sem investigação não se faz nada. A Aromas do Valado tem uma equipa sediada na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que nos presta serviços na área da investigação e desenvolvimento de novas fórmulas. Mas também temos em Idanha-a-Nova um grande potencial na Escola Superior de Gestão. As empresas e as universidades devem unir-se mais para juntos conseguirmos vencer nestes territórios despovoados.